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2007.06.14
À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS ! - 3ª Parte*

No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:
Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!
Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.
O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:
Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.
Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:
- Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores
- Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?
- Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.
- Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.
- Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?
- Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!
- Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.
E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!
- Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?
O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:
- Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.
Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!
- Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.
E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de St. Agustin onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.
Instalados no n.º 37 da Rua de St. Agustin a azáfama do trabalho não parava pois, pouco antes, ainda na anterior loja, Constantino havia decidido concorrer à Exposição de Paris que nesse ano se realizou nos Campos Elíseos.
Constantino, mais uma vez, surpreendeu tudo e todos, o seu stand foi dos mais visitados e as suas obras foram enaltecidas, com primeiras páginas de jornais, tal era a beleza, encanto e perfume que transmitiu aos seus arranjos florais.
A excepcional qualidade do seu trabalho foi reconhecida por todos e foi assim que, no último dia do certame, viu o seu nome ser pronunciado pelo Rei que o declarou vencedor do certame em arte floral.
Com este prémio os aplausos foram mais que muitos e até o Sr. Flamet, esquecendo a azedume da saída, veio cumprimentar Constantino prestando-lhe sentido elogio.
Com este prémio o reconhecimento de Constantino foi geral, ultrapassou fronteiras, fez crescer o seu negócio cujas encomendas eram agora satisfeitas por 40 empregados.
Constantino, porém, não se deslumbrou e, acicatado pelo desejo de inovar e conhecer novos perfumes, decide uma viagem a Inglaterra e aos Pirinéus para estudar a flora e botânica destas regiões, que era rica. Confiada a loja aos seus empregados, sempre dirigidos pelo seu amigo Lequerel, Constantino embarcou para Inglaterra e regressou pelos Pirinéus na descida dos quais, em Tercis-les-Bains, sofreu uma queda quando, sentindo-se ainda rapaz e a lembrar-se da sua terra, subiu a um penhasco para apanhar uma flor que tinha um azul que nunca antes vira.
Nesta vila, reteve-o a doença uns tempos, e, a conselho dos naturais, descobre as águas termais que o ajudaram a recuperar das mazelas nas pernas e costelas e que mais tarde tanto o haviam de ajudar no alívio do seu reumatismo.
Regressado a Paris, carregado de novos perfumes e flores que descobrira nos Pirinéus, Constantino lança-se de novo na profissão pois as encomendas das casas reais, nobres, e burgueses ricos e poderosos não paravam, todos disputavam as flores de Mestre Constantin.
Como o negócio não parasse sentiu necessidade de arranjar outras instalações pois as da Rua de St. Agustin já se mostravam reduzidas para albergar os 40 trabalhadores.
E é assim que por volta de 1846 se instala no 1º e 2º andares do n.º 7 da Rua D'Antin, nas proximidades da Ópera de Paris, por onde passava a melhor clientela da cidade.
Pela primeira vez sentiu Constantino o que era ter uma casa/habitação próprias pois, vivendo no amplo 2º andar, sentia o prazer de descer ao primeiro, de receber os prestigiados clientes no salão que a oficina dispunha e de ver todos os seus empregados a cumprir as ordens que lhes dava e sobretudo de ver o seu projecto empresarial e artístico realizado.
Este gozo, porém, havia de durar pouco pois, com a revolução de 1848, Paris tornou-se uma cidade de grandes dificuldades e miséria e durante dois anos foi esperar melhores dias sem que, contudo, tivesse de despedir os seus empregados que, por causa das barricadas e fome, na sua própria Casa e loja os alojou.
E só a abnegação de Constantino salvaram a sua empresa pois, não obstante Paris não lhe proporcionar negócios, a sua fama pelas casas reais da Bélgica, Alemanha e outras era grande e com elas conseguiu muitos negócios e recuperar o movimento comercial antigo.
Em 1850, serenada a Revolução e implantada a República, já o rei dos Floristas gozava de novo as delícias do negócio e é, então que, para calar a mágoa da saudade e aquela velha angustia que lhe rasgava o peito decide vir a Portugal.
Anunciadas e distribuídas as ordens sobre o giro da casa, Constantino dá ordens ao Sr. Lequerel para anunciar a viagem aos clientes e divulgar o facto nos jornais de Paris e Lisboa.
E é assim que Lisboa recebe o Rei dos Floristas.
(*)Clique aqui para ler a 2ª parte deste artigo
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Posted at 14:49 by ntmad
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2007.06.13
por António Afonso
Águas…
Águas sempre em fúria na avidez da chegada…
Murmúrio correndo distraído ao bater de asas
de um dilúvio azul
que morre na rebentação das margens.
Eis-te, ó rio Douro !
Eis-te, entrançando limos, beijos de bruma e terraços de néctar,
nos verdes altares de Baco e amêndoa doce
erguidos em encostas vivas de sol e fulgor.
Quisera eu, ébrio dos teus suspensos jardins
e indómita beleza,
beber também o eterno e cálido canto dos oásis
quando sobre ti se debruçam Outonos de oiro
e cascatas de miragem
que te vestem na longínqua distância da memória …
Posted at 23:27 by ntmad
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2007.06.12
A LUTA POR UM IDEAL NOBRE

Há semanas atrás, o meu querido amigo Dr. Artur Couto lançou-me o repto de escrever algo sobre uma grande professora que tive o privilégio de conhecer pessoalmente, a Drª Alice Maia Magalhães. E se vinco o privilégio de a ter conhecido pessoalmente é porque já a conhecia como autora dos «livros únicos» de Química adoptados no antigo Curso Complementar dos liceus no meu tempo de estudante. Este facto fez-me nutrir por ela muita admiração e a excelente qualidade dos mesmos muito contribuiu para que eu seguisse o curso de Ciências Físico-Químicas, afinal o mesmo que essa excelente autora tinha frequentado com enorme sucesso cerca de 30 anos antes.
A Drª Alice Magalhães nasceu na freguesia de Bonfim no Porto. Porém, era uma flaviense do coração, por ser descendente de flavienses por parte da mãe, ter vivido em Chaves e ter frequentado nesta linda cidade o curso Geral dos Liceus.
Era uma grande Senhora, foi uma professora de primeira grandeza e uma autora de grande sucesso. Os livros de Química que concebeu, em colaboração com o Dr. Túlio Lopes Tomás, um professor de uma grande cultura não só científica mas também humanística, podem considerar-se muito avançados no tempo em termos didácticos. Hoje defende-se muito o recurso à História da Ciência para que os alunos adquiram conhecimentos não só sobre a ciência, mas também sobre o que é a ciência e como se produz ciência. Pois, ao contrário de todos os outros livros de Ciências pelos quais eu estudei, os livros da Drª Alice Magalhães e do Dr. Túlio Tomás, particularmente o do 6º ano dos liceus, adoptavam uma abordagem construtivista baseada na história da Química, ficando os alunos que estudavam os livros a saber como nesta Ciência evoluiram os conceitos e surgiram as leis e, com isso, enriquecendo os seus próprios conceitos.
Quando conheci a Drª Alice, logo vi nela uma Professora de grande competência e honestidade, que tinha um ideal nobre. Na condição de Senhora quase sem família e portadora de uma alma grandiosa, esta «flaviense do coração» lutava nessa altura por uma Associação de Solidariedade Social dos membros da sua classe profissional que pudesse ser verdadeiramente útil àqueles que, como ela, viviam praticamente sós. Visitava Escolas, frequentava Encontros onde se reuniam professores, sempre na mira de arranjar mais sócios.
Um dia, ao sair do quarto de uma residencial modesta na Baixa coimbrã, a caminho da Universidade, no primeiro dia de uma Conferência Nacional de Química, encontrei no corredor a Drª Alice, com uma mochila às costas, pronta para ir também para o mesmo Encontro. Fiquei admirado que uma Senhora que tinha ganho muito dinheiro com os livros adoptados em todas as escolas do país, que possuía uma vivenda no Largo do Monte, um dos mais lindos miradouros de Lisboa, estivesse alojada naquela modesta (embora asseada) residencial e não num bom hotel. Prontifiquei-me a acompanhá-la e a contribuir para o pagamento de um táxi que nos transportasse até à universidade, pois pensei que, dado já não ser propriamente uma jovem, teria alguma dificuldade em me acompanhar pelo «Quebra-costas» acima, até ao nosso destino. Resposta pronta dela: eu prefiro ir a pé!
Na subida, logo a seguir ao Arco de Almedina, parou junto a uma montra e contemplou um lindíssimo «galo de Barcelos». Confidenciou-me que coleccionava «galos de Barcelos» e eu respondi-lhe que era coleccionador de mochos. A Drª Alice Magalhães contemplou o lindíssimo objecto, viu o preço e disse: é muito lindo, mas é muito caro; não o compro. E seguiu em frente, passo firme.
No pouco que conheci da Drª Alice, directamente e indirectamente através do meu primeiro co-autor de livros, que foi seu Colega próximo, constatei que era uma Senhora extremamente poupada. Ao contrário de tantas pessoas materialistas que nos rodeiam, esta Senhora era uma idealista: poupava para ser útil aos seus Colegas que mais careciam de uma Associação de Solidariedade Social dos Professores e, por isso, ela a fundou, foi a sua primeira Presidente e deixou-lhe quase toda a sua fortuna.
Posted at 21:01 by ntmad
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2007.06.11

HOSPITAL DE D.LUÍS I, NA RÉGUA, FEZ 50 ANOS
Foi no dia 05 de Maio. A Associação dos Amigos do Hospital D.Luiz I resolveu solenizar a efeméride com um programa recheado de eventos culturais e recreativos que preencheu todo o dia. Aproveitou a ocasião para, em parceria com o Município homenagear o Dr. Camilo de Araújo Correia, que durante largos anos desempenhou as funções de médico anestesista e foi um dos que mais contribuíram para o prestigio do hospital. Esta unidade de saúde foi inaugurada em 1957 e desde então tem prestado apoio às populações dos concelhos do Peso da Régua, Mesão Frio e Santa Marta de Penaguião.
BODAS DE PRATA DO MUSEU MUNICIPAL DE MIRANDA DO DOURO
No dia 18 de Maio, com uma homenagem ao seu fundador e primeiro director António Maria Mourinho, o Museu de Miranda festejou as Bodas de Prata. Foi apresentada e exposta a capa de honras comemorativa dos 25 anos, obra do artesão Aureliano Ribeiro. José Preto, produtor de vinhos em Sendim, apresentou o primeiro vinho DOC do Planalto Mirandês, edição comemorativa dos 25 anos do Museu. O Museu é um espaço de relevo nas estruturas culturais da região mirandesa.
JOGOS TRADICIONAIS EM PARADA/BRAGANÇA
Para festejar o Dia do Trabalhador nada melhor que brincar. E em Parada, no concelho de Bragança, cerca de 150 pessoas, mais pessoa, menos pessoa, brincaram à maneira antiga jogando o fito, a raiola, o ferro, a corrida dos sacos, o jogo do galo e da relha. Os prémios eram tentadores. Se o 4º classificado de cada prova teve de contentar-se com uma garrafa de vinho fino, já o 3º recebeu um quilo de linguiças, o 2º também um quilo, mas de salpicões e o vencedor ergueu, como prémio da vitória, um presunto. Ao último classificado para poder afogar a tristeza da derrota foi atribuído um garrafão de vinho. Câmara Municipal, Junta de Freguesia, Associação dos Jogos Populares, Turismo do Nordeste, Zamora e Léon patrocinaram a iniciativa.
VALPAÇOS. NOVO MERCADO MUNICIPAL
Com um custo de 500 mil €, totalmente suportado pela Câmara Municipal, abriu no dia 9 de Maio o novo Mercado Municipal. Situado no centro da cidade vem preencher uma lacuna que se fazia sentir e proporcionar a compradores e vendedores melhores condições higiénico-sanitárias ausentes do mercado provisório anteriormente ali existente.
VIMIOSO – A IGREJA MATRIZ EM OBRAS
A interessante igreja do século XVI dedicada a S. Vicente está a ser alvo de uma intervenção profunda sob a responsabilidade do IPPAR . Eram obras há muito desejadas pela população e seus representantes, mas como se trata de um imóvel classificado de interesse público, só com autorização daquele Instituto elas podiam ser realizadas. É agora.
MIL JOVENS NA MATUTAD
Matutad é uma sigla de Matemática e Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Aqui se reuniram os alunos do 3º ciclo de 15 escolas que tiveram a oportunidade de revelar os seus conhecimentos de matemática. Os vencedores foram: 7º ano – João Pedro e André Ferreira, de Valpaços; 8º ano – Nuno Machado e Ana Queirós, de Vila Real; 9º ano – Sérgio Souteiro e Jorge Nogueira, de Bragança. As Escolas Vencedoras foram: 1º Colégio da Boavista, Via Real; 2º Escola de S. Pedro, Vila Real; 3º Escola Júlio Carvalhal – Valpaços.
Também na área da Física e da Química se realizou na Utad a III Edição das Portugal Olimpíadas da Química Júnior que reuniu 126 alunos, distribuídos por 42 equipas, tendo saído vencedoras as equipas representativas das escolas Miguel Torga, de Bragança, D. Sancho II, de Alijó e Escola Básica de Castro Daire.
O II CONGRESSO INTERNACIONAL DE MIGUEL TORGA
Promovido pela Câmara Municipal de Coimbra, de parceria com a Câmara Municipal de Sabrosa, realizou-se nesta vila um encontro internacional que juntou especialistas e estudiosos da obra literária de Miguel Torga vindos de Portugal, Brasil, Espanha, Holanda e Bélgica. Os congressistas tiveram reuniões de estudo e visitaram alguns dos muitos lugares descritos na obra do escritor transmontano admirando o retrato fiel que deles faz.
DOIS MUSEUS EM AGROCHÃO/VINHAIS
Benjamim Afonso, ex-Presidente lançou a iniciativa e a actual Junta de Freguesia, com a colaboração da Câmara, deu-lhe continuidade. No Dia Mundial dos Museus, Agrochão inaugurou o Museu do Azeite que passa a testemunhar para as gerações futuras a forma tradicional de obter o azeite e o Museu Etnográfico e Rural que guarda centenas de peças da vida campestre.
É também de Agrochão este grupo de mulheres, todas na casa dos sessenta, que sob a orientação da professora aposentada Maria da Graça Afonso, através do canto, da dança e da representação renovam e perpetuam usos, costumes e tradições
Belos exemplos da preservação de memórias que, só por si, justificam e convidam a visitar esta aldeia bem transmontana.
UMA CASA MORTUÁRIA EM CARVAS
Carvas é um pequeno lugar da freguesia de Milhais, no concelho de Murça. Se calhar, envelhecida na sua gente, sentia mais a falta de uma casa mortuária do que de um infantário. Uma família do lugar ofereceu o terreno, a Junta colaborou, a Câmara avançou e os vivos têm agora um espaço digno para dignamente velar os seus mortos. Inaugurou-se no dia 13 de Maio.
TRÊS MINAS RECEBE ACAMPAMENTO DE BOMBEIROS
Três Minas é uma aldeia do concelho de Vila Pouca de Aguiar. Jovens bombeiros vindos dos vários pontos do distrito, resolveram reunir-se aqui em acampamento para conviver e trocar experiências profissionais. Houve missa campal, uma vitela assada no espeto, visita ao novo Museu Municipal, desporto, música. Três dias, bem passados, em Três Minas.
FILIPINOS INVADEM A VILA DE SABROSA
Pois é verdade. Um grupo considerável de Filipinos, no dia 12 de Maio, sábado, disciplinados, sorridentes, afáveis percorreram e elogiaram as ruas de Sabrosa e tudo o mais que lhes era dado ver. Visitaram a Igreja Matriz, os Paços do Concelho, o Auditório, a Adega Cooperativa e, com muita curiosidade a Casa da Pereira, onde, se diz, ter nascido o grande navegador Fernão de Magalhães, afinal o descobridor das Filipinas e o causador inocente desta pacífica invasão.
TEMPORAIS DESTRUIDORES EM TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
As antigas e temidas trovoadas de Maio, de vez em quando, cumprem o calendário. No dia 22 de Maio um forte temporal se abateu sobre a cidade de Valpaços afectando a segurança das pessoas e o funcionamento dos equipamentos urbanos. Dias antes uma trovoada de granizo, varreu como um ciclone a agricultura da freguesia de Jou, no concelho de Murça. 70 a 80% das culturas e caminhos tornaram-se incapazes. Cimo de Vila, Aboleira, Rio, Banho, Penabeice, Mascanho foram os locais mais afectados. O Governo prometeu atenuar com apoios a "desgraça" dos agricultores.
D.XIMENES BELO, PRÉMIO NOBEL DA PAZ, NO ALTO TÂMEGA
Entre os dias 25 e 27 de Maio, o ex-bispo de Dili/Timor, depois de uma recepção na sede da AMAT, em Chaves, onde recebeu um donativo para construir uma escola em Timor, visitou Montalegre, Valpaços, Vila Pouca e Ribeira de Pena. Em todas as localidades celebrou a Eucaristia descerrou lápides comemorativas ou inaugurou ruas com o seu nome. O Alto Tâmega soube, na sua melhor tradição, confirmar a hospitalidade transmontana.
AS COMEMORAÇÕES CENTENÁRIAS DO NASCIMENTO DE MIGUEL TORGA
Continuam com várias iniciativas. No passado dia 10 de Maio, 400 jovens estudantes das escolas de Vila Real e Bragança reuniram-se na Aula Magna da UTAD para participar numa acção cultural que envolveu diversos actos lúdicos e cénicos inspirados nas obras do grande escritor. Visitas à exposição bibliográfica, no Teatro Municipal e a S. Martinho d´Anta fizeram parte do programa.
Também na Quinta Nova, situada na margem direita do rio Douro, na freguesia de Covas do Douro desde 1758, e com a presidência do Governador Civil, se efectuou o II Encontro do Ciclo de Estudos sobre Miguel Torga.
UM LIVRO SOBRE ESPINHOSO, CONCELHO DE VINHAIS
Alexandre Perafita, sabrosense de nascimento e professor na UTAD, tem dedicado grande parte da sua vida na recolha e tratamento das tradições orais trnsmontanas. Agora, de pareceria com Isaura Fernandes lançou o livro Provérbios e Cultura Popular cujo conteúdo foi essencialmente recolhido em Espinhoso, uma aldeia que conserva hábitos, falares e memórias seculares. Um livro para ler, uma aldeia para visitar.
UMA HISTÓRIA DO OUTRO MUNDO
Aconteceu. Recentemente. Foi em Soutelinho do Monte, no concelho de Vila Pouca de Aguiar. Maria Machado tem 50 anos e, após uma discussão com o marido, desapareceu. Marido e vizinhos calcorrearam caminhos, bateram montes, inspeccionaram poços e lugares suspeitos e… nada. À noite, regressado a casa, o marido encontrou a mulher debaixo da cama inerte, gelada, sem vida. A notícia da morte espalhou-se pela aldeia. Alertadas as autoridades verificaram que de facto ela não respondia a qualquer estímulo. Enquanto era aguardado o Delegado de Saúde, um militar da G.N.R tocou em Maria Machado e ela reagiu com um leve movimento do rosto. O susto dos presentes foi grande. Afinal a morta, estava viva. Veio o INEM, foram prestados os primeiros socorros e levada para o Centro de Saúde onde ficou em recuperação. A explicação para este facto insólito, parece encontrar-se na tomada de dose excessiva de medicamentos. Enfim, uma vida inesperada para uma morte tentada.
DESPORTO
Futebol. O desempenho desportivo das principais equipas transmontanodurienses deu, no final da época, os seguintes resultados:
- O Clube de Morais/Macedo de Cavaleiros, como já aqui informámos, ganhou Campeonato Distrital de Bragança e o Mirandês venceu a Taça da Associação Bragançana.
- Por sua vez, o Futebol Clube de Vidago venceu o Campeonato Distrital de Vila Real, subindo à III Divisão Nacional, enquanto a Taça da Associação foi conquistada pelo Boticas.
- O Grupo Desportivo de Chaves classificou-se em último lugar na Liga de Honra, foi despromovido e vai actuar na II Divisão B, na próxima época.
- O Grupo Desportivo de Bragança foi despromovido da II Divisão Nacional B e regressa à III Divisão.
- O Sport Clube de Vila Real e Alijoense, que disputaram a III Divisão, não conseguiram a permanência e baixaram aos distritais.
- Mirandela (4º), Mondinense (7º), Macedo de Cavaleiros (10º), na Série A, Torre de Moncorvo (3º), na série B, conseguiram prestações aceitáveis, mantendo-se na III Divisão.
Comentário: Como se constata, o futebol transmontano é mesmo um futebol de terceira.
PESSOAS
Durão Barroso O actual Presidente da Comissão Europeia, português ligado por laços familiares e de vida a Trás-os-Montes e Alto Douro, foi agraciado pela Câmara Municipal de Lamego com a Medalha de Ouro da cidade. A cerimónia ocorreu no dia 21 de Abril nos Paços do Concelho e, nesse mesmo dia, em Tarouca, Durão Barroso foi entronizado oficialmente como membro da I Confraria do Espumante. Apetece-nos comentar,como é hábito dizer-se na Guiné: "manga de ronco".
Salomão Fernandes É um jovem aluno do 9º ano de escolaridade, da Escola Paulo Quintela, de Bragança. Em Albufeira, Algarve, ganhou a final entre 30 finalistas no Concurso Nacional das Olimpíadas do Ambiente. Por tal motivo ganhou vários prémios entre os quais a entrada gratuita por um ano no Zoomarine, onde plantará uma árvore com o seu nome, uma estadia de oito dias para 4 pessoas, em Castelo Branco e integrará uma equipa que lançará no mar alto duas tartarugas gigantes. Ao concurso, concorreram 17 mil alunos de todo o País. Uma referência ao mérito.
Claudina Rosa É de Codeçoso, freguesia de Meixedo, concelho de Montalegre, barrosã, portanto. Em casa, com ela eram 13 irmãos. Teve 6 filhos e já vai em 18 netos, 24 bisnetos e 1 (uma) trineta. No dia 14 de Maio houve festa em Codeçoso, com missa na capela de S. Nicolau e almoço em Montalegre para celebrar os 100 anos de vida e cantar os "Parabéns" à menina Claudina do Eirão, como é conhecida no local a veneranda anciã Claudina Rosa.
Lucrécia do Espírito Santo São cada vez mais numerosas as pessoas, sobretudo mulheres que atingem os 100 anos de vida e os ultrapassam com razoáveis níveis de saúde. É o caso da tia Lucrécia, de Espinhoso, no concelho de Vinhais, que celebrou o seu 1º século de vida no dia 18 de Maio. Cuidou e ajudou a criar 10 irmãos, substituindo os pais que morreram cedo. Tinha quase 50 anos quando lhe nasceu o seu filho que, depois de andar emigrado na Alemanha, é hoje uma das pessoas mais afortunadas da terra. Parabéns, Tia Lucrécia e continue a "fazer meias" por muitos anos ainda.
Teresa Luzio Desde que fez, pelo menos 103 anos, temos acompanhado em NTMAD os vários aniversários da "ágil e lúcida" flaviense, internada há 18 anos na Santa Casa da Misericórdia de Chaves. Sempre bem disposta e ar sereno, tinha por hábito dizer, em jeito de queixume: "Deus nunca mais me leva". Deus, finalmente, fez-lhe a vontade aos 109 anos, no dia 20 de Maio. Depois das cerimónias fúnebres na igreja da Misericórdia, foi o seu corpo transladado para Castelões, terra natal. NTMAD, pela última vez, dá os Parabéns à cidadã Teresa Luzio pela longa e exemplar vida que viveu.
Posted at 22:44 by ntmad
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2007.06.08
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Em continuação da minha última crónica sobre “Comida simples, Boa comida…”, decidi variar, sem fugir ao tema, o sentido da escrita.
É quase impossível ter uma crónica sem que escreva sobre a necessidade de bons produtos para fazer uma boa comida. Qualquer tipo de cozinha só é boa se começar por esse princípio: os produtos.
Em Trás-os-Montes e Alto Douro, quando nos acusam de ter uma culinária pouco rica podemos, sempre, responder com a qualidade dos nossos produtos agrícolas ou de criação animal. As práticas culinárias são um arrastar de tradições, mas os produtos são o resultado de um aperfeiçoamento constante do que a nossa Natureza sempre nos deu. E poucas vezes cantamos hinos isolados a esses produtos.
As representações artísticas desses produtos são muitas vezes fantasiosas e os produtos aparecem quase como um acidente, ou instrumento básico, para a construção estética. Os produtos estão lá, mas apreciamos e relembramos apenas o conjunto. Quando de repente nos lembramos das fantásticas naturezas mortas de Josefa de Óbidos todos associamos na memória a profusão de artigos crus ou confeccionados, e raramente fixamos as romãs, os queijos, as tigeladas ou os complexos doces aí representados.
Vários artistas, pintores portugueses, dedicaram o seu tempo e artes à pintura de produtos alimentares em naturezas mortas. Às naturezas mortas está quase sempre associado um sentido de inacção que José de Monterroso Teixeira atribui a essas manifestações pictóricas: “…processo que pode conduzir a obras significantemente vigorosas e ricas. Porém não passarão de objectos as mais das vezes agradáveis mas limitados, concedendo que muitas delas serão verdadeiras maravilhas que ultrapassam as «fronteiras do impossível», mas irremediavelmente as naturezas mortas situam-se no vestíbulo do estilo.”
Encontramos representação de produtos alimentares na pintura de naturezas mortas de grandes nomes portugueses. Para além de Josefa de Óbidos quero referir ainda Baltazar Gomes Figueira, ambos do sév. XVII, Joaquim Manuel da Rocha, (Séc. XVIII), Morgado de Setúbal (Séc. XVIII-XIX), Sanches Ramos (Séc. XIX), Luciano Freire, José Queirós, Simão da Veiga e Manuel Bentes, Abel Manta todos do séc. XIX-XX, e depois uma grande variedade do séc. XX desde Maria Toscano Rico, passando por Eduardo Nery até Jacinto Luís. E na estética da pintura, também se reproduzem os bons produtos.
Mas a designação de natureza morta, nos tempos correntes e comparada com os exemplos de pintura até finais do século XIX, parece perder sentido pela dinâmica que a própria pintura contemporânea contem. A pintura contemporânea vai muito para além do retrato dos objectos e dos produtos. Estes adquirem movimento, voam e ajudam a significar sentimentos.
E é nesse sentido que estou a escrever esta crónica e a pensar na nossa conterrânea, e minha particular amiga, Graça Morais. É difícil escrever sobre os amigos. As palavras adquirem outros significados. Para facilitar não vou escrever sobre ela mas acerca da sua pintura, que provavelmente é ainda mais difícil.
Graça Morais não pinta naturezas mortas. Os seus elementos estão vivos. E quando pinta, e sobretudo desenha produtos alimentares da terra, parecem quase uma consequência do trabalho das mulheres. Os produtos são uma forma de melhor enobrecer o trabalho árduo das suas Escolhidas. Mesmo isolados os seus produtos são poesia tranquilizadora, enquanto nos transportam para o mundo rural de onde provêm.
Quando se lê a pintura de Graça Morais temos a primeira sensação de força das expressões e depois, temos que ler atentamente todos os detalhes. Na série Terra Quente a delicadeza do desenho dos produtos leva-nos para a segunda leitura, não nos entusiasmando com os elementos fáceis. Mas depois lá os descobrimos, os cereais que nos darão o pão, as batatas, os animais de sustento… E nas Deusas das Montanhas lá estão discretamente os produtos que alimentam, que dão alguma riqueza depois do trabalho agrícola e sofrido. A Idade da Terra remete-nos grandiosamente para esses mesmos trabalhos agrícolas. E nas séries Metamorfoses II e III, a grande força do desenho com pouca variação de cor é tão forte que só depois observamos o que as mulheres têm nas mãos.
Ainda voltando à série Terra Quente, não podemos esquecer a simplicidade de batatas greladas, das cerejas, dos produtos das hortas, dos cabritos, das perdizes, das galinhas, … e claro, em outras séries a omnipresente oliveira e as azeitonas, e a matança de porco.
Não significa isto que Graça Morais seja uma pintora dos produtos alimentares. Eles estão naturalmente na sua pintura. São uma referência de apoio ao retrato constante que a pintora faz das suas vivências e sobretudo da sua Terra. E essa constância de representar as suas memórias, e que naturalmente lhe formaram o gosto, dão a força e o carácter forte à sua pintura. Mesmo nas séries Cabo Verde e Japão. E obviamente na recente série Os Olhos Azuis do Mar, nos aparecem os frutos do mar, os peixes e as conchas… e as gaivotas.
Graça Morais não pinta naturezas mortas. Os seus produtos revelam a vida. Saltam da tela, do papel com a dinâmica feliz da pintura contemporânea. E com os seus sentimentos. Os produtos são a consequência, mas apenas ilustram a Vida.
Apetece pedir: para quando uma exposição temática com referência a estes produtos?
Para ilustrar esta crónica escolhi um desenho simples feito sobre papel de música. A simplicidade de um produto da Natureza: uma pêra. O rigor do desenho com a poesia da música.
BOM APETITE!
Posted at 01:55 by ntmad
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2007.05.18
Discurso proferido em 12 de Maio 2006 no Forum Lisboa

Em primeiro lugar devo agradecer, muito reconhecido, o facto de a Casa de Trás-os-Montes ter organizado esta sessão, também o de tantas pessoas terem decidido estar presentes, e finalmente que o Doutor Fernando do Amaral, pela sua excessiva bondade que o caracteriza, e trazendo consigo o prestígio de uma tão longa e fecunda carreira, ao serviço do País e da justiça, se tenha disposto a discursar numa reunião de trasmontanos em que sobretudo me sinto na função de pretexto, sem outro mérito justificativo. De mim posso também dizer que "menino e moço" me trouxeram, a minha mãe Leopoldina e o meu pai António, ambos solidamente trasmontanos, para a cidade grande, que era um dos destinos da nossa constante corrente migratória de gente pobre, sempre cristãmente modesta mas nunca humilde, praticando que a igualdade vem da maneira de viver e não da maneira como se ganha honestamente a vida, porque todos esses trabalhos são igualmente dignos.
Que o meu pai, que se reformou subchefe ajudante da Polícia de Segurança Pública do Porto de Lisboa, e a minha mãe que trabalhava arduamente na máquina de costura que está em casa do meu filho mais velho, tenham decidido e conseguido, a duros mas alegres sacrifícios, que a minha irmã Olívia fosse médica, e eu me formasse em direito, ambos na Universidade de Lisboa, torna fácil entender que sinta, no meu íntimo, que esta homenagem trasmontana lhes pertença, também porque nos educaram no amor à terra de origem, às suas tradições, às suas virtudes e costumes.
Na minha vida sempre me encontrei ligado a trasmontanos e, para falar apenas dos que já morreram, não posso deixar de recordar o Almirante Sarmento Rodrigues, tão decisivo que foi nas minhas escolhas de serviço à comunidade, do seu e meu amigo Dr. Joaquim Trigo de Negreiros, do Dr. Águedo de Oliveira, todos da geração da qual foi celebrado o centenário do nascimento, em que tive a honra de ser orador, e membros de um grupo mais alargado de trasmontanos que estavam juntos no governo no meu tempo de jovem licenciado, e que por isso conhecíamos como A sereníssima Casa de Bragança.
Mas hoje, quando, no entardecer da vida, recordo as gentes e as terras por onde passei, o que mais seguramente me vem à lembrança é o avô Valentim sentado na pedra que na aldeia de Grijó de Val-Bem-Feito lhe servia de banco para ler o jornal, a Maria Boleira que me tinha sempre reservada uma bôla de azeite, o Manuel Fiscal que se despedia desejando "a saúde ou dinheiro, que Deus não pode dar tudo", a minha tia Maria que me ensinou a ler pela Cartilha de João de Deus, o moínho onde trabalhou o meu avô paterno que não conheci, o arroz doce e as alheiras da minha avó Olívia, o direito abusivo que eu tinha de emparceirar com o meu primo Alexandre para carregar o andor do Menino Jesus na festa do Senhor do Calvário, no primeiro domingo de cada Setembro.
Nos longos caminhos do mundo por onde andei, na África do nosso findo Império, no Brasil, nas duas costas dos EUA, no Oriente, sempre encontrei o mesmo fenómeno da solidariedade dos trasmontanos emigrados, entre si e logo de braços abertos para os que chegam. Na década de sessenta do século passado, sendo então Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, pareceu-me necessário organizar a solidariedade das comunidades de portugueses residentes no estrangeiro, com as comunidades de descendentes de portugueses, e ainda com as comunidades filiadas na cultura portuguesa porque por ali tinham passado ou a soberania ou a pregação portuguesas.
Fiz uma longa viagem ao redor da terra para organizar o I Congresso dessas Comunidades em Lisboa-Guimarães-Coimbra (1964), e o II Congresso a bordo do Príncipe Perfeito (1966), navegando no Índico na rota de Vasco da Gama ao longo da costa de Moçambique, e sempre, espontaneamente, os trasmontanos que existissem se mobilizaram para que o projecto se efectivasse.
Foi então que pude viver a força de um portuguesismo que se mantinha, variado na forma mas com igual substância, na diversidade de meios e de circunstâncias em que se encontravam: percebi que existia uma realidade a que chamei A Nação Peregrina em terra alheia, e que os trasmontanos formaram sempre um elo dessa rede que se estendeu a partir da interioridade nordestina por todos os caminhos que abrimos pelo mundo. O conceito de Reino Maravilhoso, que devemos a Torga, tem certamente origem na beleza da paisagem que muda harmonicamente com as estações, e depois com a amorosidade que para sempre envolve a relação da terra com os seus filhos, mas os custos da interioridade foram enormes ao longo dos séculos, nesta região que foi sempre do Reino político português, sem guerras de conquista. Os progressos evidentes das últimas décadas europeias não eliminaram todos os custos, mas serão melhor avaliados em face da memória de carências passadas, e da submissão à natureza das coisas. Lembrarei a Colheita do Senhor, palavras com que se aliviava a dor das mães que em cada ano sofriam a perda dos meninos de anjos sem pecado. Ou as razias causadas pela tuberculose, que por quatro vezes, só na nossa família, levou o avô Valentim a percorrer o caminho do cemitério para enterrar os filhos.
A geração que assumiu a gestão local, neste período europeu em que nos encontramos, deu passos largos na melhoria da qualidade de vida, a governar a parcela nacional mais próxima dos centros da União, mas ainda a mais distante em termos de acessibilidade. Geração muito apoiada pela rede do ensino, em que destacaria o Politécnico de Bragança e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas a sofrer agora, como toda a interioridade, o despovoamento, a quebra da natalidade, a debilidade do crescimento económico que não oferece condição suficiente de fixação dos diplomados, com o agravamento que deriva da crise financeira do Estado que obriga a meditar, cada vez que a invocada racionalidade gestora o leva a retirar presença e serviços, se não é a batalha da interioridade que perde forças e espaço de intervenção.
O Reino Maravilhoso vai exigir a mobilização geral para que estes efeitos colaterais de uma mudança global das circunstâncias em que o país se insere sem escolha não atinja as raízes, não afecte o alicerce que é a pátria pequena dos que são obrigados a partir, dos que ficam, e dos que serão os herdeiros dos novos erros e acertos.
Ao longo dos tempos os portugueses foram emigrantes para todas as lonjuras da sua terra natal, por vezes, como nós, apenas dentro do próprio país, outras porque a pobreza da vida incita a procurar diferentes promessas de abundância, também porque o Estado, deitado a longe, para a gesta das descobertas e segurança e povoamento das conquistas, organizava a transferência nem sempre consentida. O fim do império, em 1974, fez convergir toda a diáspora, sem diferença das causas e razões da partida, para a condição hoje de Nação peregrina em terra alheia.
O regresso foi de regra um projecto guardado na memória dos afectos, mas, com frequência, os filhos nascidos nas terras de acolhimento foram a âncora que fixou para sempre os pais, e assim foram crescendo, nas cinco partes do mundo, as comunidades de descendentes de portugueses, que em geral não ignoram as origens, embora alterando a imagem que passa de geração em geração. É assim nas duas costas dos EUA, é sobretudo assim no Brasil, também assim em vários lugares do Oriente.
O que tudo faz nascer duas distâncias do emigrante em relação à origem. Primeiro a dolorosa distância física que não deixa esquecer os amigos de infância, o arvoredo e o cheiro dos campos, nem permite voltar a puxar a corda do sino, andar na procissão, comer o caldo de couves temperado com unto, mais as amoras que tingem as mãos, e o pão de centeio ou de trigo.
Mas depois cresce para muitos a distância da memória, isto é, a memória que se distancia no tempo e vai apenas guardando registos selectivos, piedosa no embelezar das lembranças que não conservam nem as dores da infância, nem o envelhecer penoso dos pais e avós, sacrificados ou à decisão de ficar ou à impossibilidade de partir.
Dos vários longes, ou físicos ou das memórias, à medida que os horizontes se alargam, e que as novas dependências e exigências se tornam mais densas, o sentimento das raízes parece vir socorrer a defesa da identidade originária, e lembrar a pátria pequena que é a terra de origem, o município que parecia tão vasto, as artes populares que primeiro educaram os gostos, os saberes ancestrais para lidar com a saúde e a comida, para animar os festejos, para fiar e tecer, para dar formas à madeira e à pedra, para colher o mel ou fabricar os enchidos, e afinar os cuidados com manter os velhos muros, as antigas casas, as acolhedoras esquinas, para preservar ou recriar o ambiente que acolha a mudança sem perder as origens, que reinvente um futuro com história, e abra os braços a todas as memórias, as memórias dos que partiram e voltam, dos que não voltam mas não esquecem, dos que ficaram e garantiram a identidade, e com ela a esperança, a ternura, e o consolo dos reencontros. A Nação peregrina em terra alheia deve a estas devoções dos que ficaram, governando, defendendo e revigorando as comunidades locais, e afeiçoando a sua circunstância, que a identidade de todos e de cada um não se dilua no turbilhão do globalismo que nos visita para ficar.
E nós já estamos no fim da nossa responsabilidade. Aquilo em que nos resta meditar é, se pela nossa intervenção, algum sal salgou a terra e se alguma terra ficou salgada.
Posted at 16:10 by ntmad
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2007.05.12
Caros Amigos e Associados!
Aí está, de novo, a regionalização, pela mão do Sr. Deputado Mendes Bota, que, sem revelar novidades de fundo, se apresenta, de certo modo, equivoca/ambígua, pois não revelou as regras da União Europeia que, sobre esta matéria, tem linhas e limites rígidos, nomeadamente, as que respeitam à população e território.
A este propósito, há mais de um ano, a CTMAD enviou um ofício ao Sr. Presidente da AMTAD – Associação de Municípios de Trás-os-Montes e Alto Douro a convidá-lo para, em conjunto, relançarmos o debate sobre o tema para o que se convidariam os nossos melhores da Região, alguns dos quais prontamente se disponibilizaram.
Sem a oportuna resposta ficámos tristes.
Como não perdemos a esperança do debate renovamos o pedido e, desta vez lá veio uma urbana resposta que, sem surpresa nossa, não deu provas de real interesse e concretização do encontro.
Certo é, porém, que, mais que uma regulamentada Regionalização formal e institucionalmente modelada, há que substanciar a Região com medidas proactivas, propiciadoras do desenvolvimento da iniciativa privada de todos em geral e de preferência para e por aqueles que lá vivem e/ou que a amam, medidas essas que, entre outras, para apostar na eficiência e eficácia terão de ver: 1) com a redução de impostos/taxas locais e nacionais, 2) agilização de meios de licenciamento de toda a natureza, 3) medidas de crédito aliciadoras, especialmente para as industrias não poluentes, 4) mecanismos de concreta e exigida abertura aos mercados nacionais e estrangeiros já que à globalização podemos fugir, 5) intensiva e adequada formação profissional intensiva, profundamente diferente da que se fez a seguir à adesão de Portugal à CEE, 6) definição de objectivos regionais e nacionais no âmbito de cada uma das iniciativas com sanções éticas e profissionais para os dirigentes que as não alcancem, 7) apresentação pública dos resultados das empresas em cada uma das actividades.
As medidas de crédito, para além das que o Estado tomasse através dos seus próprios mecanismos financeiros, poderiam ser prosseguidas através dum Banco de Investimento a formar com os contributos das centenas de milhares de Trasmontanodurienses que no País e no estrangeiro alimentam, sem contrapartida aliciante, os actuais bancos portugueses que, com excepção de um o BPN – Banco Português de Negócios, olham para a região apenas pela lupa do lucro imediato.
E o saber financeiro não nos falta.
Temos administradores experientes, quer sejam os da diáspora marrana que, em Paris, Amesterdão, Londres e Nova York se notabilizaram, quer sejam os que actualmente dirigem bancos da nossa praça. Temos directores e empregados administrativos da banca, que nos permitem, com a devida organização, disciplina e o muito trabalho a que estamos habituados, podermos fundar uma instituição desta natureza que se torne num pólo mobilizador e multiplicador das energias ainda existentes e, sobretudo, nos permita estancar a desertificação e, mais do que isso, que se torne num dinâmico facto de inversão desse cancro da regionalização.
Aos leitores parecerá esta ideia romântica, mas não me digam que é inane ou irrealizável.
Basta que os poderosos da nossa Terra, que os tem, dêem as mãos, que queiram ainda ser mais ricos e, mais do isso, queiram enriquecer uma região e o seu Povo.
O resto virá por acréscimo, formar-se-á um dinâmico e imparável movimento que, com disciplina, credibilidade, autoridade, segurança e confiança, arrebatará todos os trasmontanodurienses para esta afirmação de vida.
Neste domínio a CTMAD pode fazer muito, pode animar os seus associados e amigos, pode sensibilizar as nossas casas espalhadas pelo mundo, pode suscitar o interesse da nossa diáspora de primeira, segunda e até terceira gerações, enfim pode ajudar a levantar bem alto o nome de TRÁS-OS MONTES E ALTO DOURO como Terra do Leite e do Mel onde dá gosto viver.
Mas, para isso, os associados da Casa terão de ser os primeiros a dar o exemplo, terão desde logo de pagar as quotas atempadamente – a Casa precisa tanto – terão de vir à Casa – agora que já elevador desculpas não há – terão de participar nos seus eventos culturais e não só, terão, para já, de comparecer massivamente na palestra do Sr. Professor Adriano Moreira, que noutro local do jornal damos conta, – não é todos os dias que há uma oportunidade destas e qualquer universidade não recusaria esta participação.
Amigos e associados se és Trasmontanoduriense e honras a tua Terra ama-a do teu modo e se te revês na nossa Casa comparece, traz os amigos também!
Posted at 07:08 by ntmad
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2007.05.11
OS PROBLEMAS DIFÍCEIS DOS TRANSMONTANOS DEVEM SER DESAFIOS PARA PORTUGAL

A Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro convidou o Professor Doutor Adriano Moreira, talvez o transmontano vivo mais prestigiado, que sempre pautou a sua vida na defes dos Direitos do Homem e não por fanatismos ou carreirismos seguidistas, respeitando o pensamento e a acção dos adversários políticos que não tinham, nem têm a mesma visão de melhorar a condição da vida humana, - para proferir uma conferência a realizar no Palácio Galveias, Campo Pequeno, em Lisboa, no dia 18 de Maio, às 18,30 horas, subordinada ao tema: "INTERIORIDADES E DESAFIOS PARA PORTUGAL".
Relacionado com este assunto disse um dia o anunciado conferencista:
"O conceito de Reino Maravilhoso, que devemos a Torga, tem, certamente origem na beleza da paisagem que muda harmonicamente com as estações, e depois com a amorosidade que para sempre envolve a relação da terra com os seus filhod, mas os custos da interioridade foram enormes ao longo dos séculos, nesta região que foi sempre do Reino político português, sem guerras de conquista.
Os progressos evidentes das últimas décadas europeias não eliminaram todos os custos.
A geração que assumiu a gestão local, neste período europeu em que nos encontramos, deu passos largos na melhoria da qualidade de vida, a governar a parcela nacional mais próxima dos centros da União, mas ainda a mais distante em termos de acessibilidade. Geração muito apoiada pela rede do ensino, em que destacaria o Politécnico de Bragança e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas a sofrer agora, como toda a interioridade, o despovoamento, a quebra da natalidade, a debilidade do crescimento económico que não oferece condição suficiente de fixação dos diplomados, com o agravamento que deriva da crise financeira do Estado que obriga a meditar, cada vez que a invocada racionalidade gestora o leva a retirar presença e serviços. se não é a batalha da interioridade que perde forças e espaço de intervenção.
O Reino Maravilhoso vai exigir a mobilização geral para que estes efeitos colaterais de uma mudança global da circunstância em que o país se insere sem escolha não atinja as raízes, não afecte o alicerce que é a pátria pequena dos que são obrigados a partir, dos que ficam, e dos que serão os herdeiros dos novos erros e acertos.
O regresso foi de regra um projecto guardado na memória dos afectos, mas, com frequência, os filhos nascidos nas terras de acolhimento foram a âncora que fixou para sempre os pais... (à espera dos filhos). (Estes), primeiro viveram a dolorosa distância física que não deixa esquecer os amigos de infância, o arvoredo e o cheiro dos campos, nem permite voltar a puxar a corda do sino, andar na procissão, comer o caldo de couves temperado com unto, mais as amoras que tingem as mãos, e o pão de centeio ou de trigo.
Mas depois cresce, para muitos, a distância da memória. isto é, a memória que se distancia no tempo e vai apenas guardando registos selectivos, piedosa no embelezar das lembranças que não conservam nem as dores da infância, nem o envelhecer penoso dos pais e avós, sacrificados ou à decisão de ficar ou à impossibilidade de partir.
"...para preservar ou recriar o ambiente que acolha a mudança sem perder as origens, que reinvente um futuro com história, e abra os braços a todas as memórias, as memórias dos que partiram e voltam, dos que não voltam mas não esquecem, dos que ficaram e garantiram a identidade, e com ela a esperança, a ternura, e o consolo dos reencontros. A Nação peregrina em terra alheia deve a estas devoções dos que ficaram, governando, defendendo e revigorando as comunidades locais, e afeiçoando a sua circunstância, que a identidade de todos e cada um não se dilua no turbilhão do globalismo que nos visita para ficar." Fim de citação.
A Direcção da CTMAD convida e recomenda a participação de todos os transmontanos que reivindicam melhor qualidade de vida para os que vivem e trabalham nas Terras de Além Marão.
Posted at 23:02 by ntmad
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2007.05.07
D. AFONSO, 1º DUQUE DE BRAGANÇA

À sugestão do Director do “NTMAD”, que me lançou o desafio de escrever algo sobre Inês Pires, às vezes também chamada Inês Peres, Inês Pires Esteves e até Inês Fernandes, respondi que o Abade de Baçal já escreveu muito e muito bem sobre essa e outras personalidades marcantes do Distrito de Bragança. Perguntou então o Dr. Nuno Aires: “E quem lê o Abade de Baçal?”
A pergunta ficou a ressoar-me no ouvido e aqui estou a tentar alinhavar duas ou três ideias sobre a dita figura, ou melhor dizendo, sobre o facto de ela ter sido a mãe de D. Afonso, 1º Duque de Bragança, fundador da Casa de Bragança, de onde sairiam D. João IV, todos os reis da 4ª dinastia, inúmeros príncipes e princesas, alguns deles figuras reinantes em casa reais europeias.
Mas antes de continuar a escrever mais seja o que for, quero deixar bem claro que não tenho formação em História. Sou uma leiga no assunto. Digamos que sou uma curiosa .O meu interesse por acontecimentos, personalidades, tradições, lendas, usos e costumes ligados a Trás-os-Montes apenas traduz o meu sentimento de pertença à nossa região e o meu afecto pelo torrão em que nasci e fui criada.
Posto isto, voltemos a Inês Pires. É de crer que o seu nome fosse realmente Pires ou Peres pois, chamando-se seu pai Pêro (ou Pedro) Esteves – parece que judeu converso e sapateiro de profissão -- é lógico que o patronímico Peres ou Pires tenha passado para a filha . (Damião de Góis situa-o na Guarda, mas outros cronistas dizem-nos que era de Portel ou, mais provavelmente, de Veiros, no Alentejo. É em Veiros, na Igreja de N.ª Sr.ª do Mileu, que se encontra o túmulo de Pêro Esteves).
Nas suas caçadas por terras de Além-Tejo, terá o jovem Mestre de Avis visto a linda alentejana e ter-se-á perdido de amores por ela. Inês Pires correspondeu-lhe e dessa ligação nasceu no castelo de Veiros D. Afonso, em 1377 ou 1380. (Alguns documentos apresentam a data de 1370, como o ano em que D. Afonso nasceu. Mas, tendo o Mestre de Avis nascido em 1357, é algo estranho que tenha sido pai aos 13 anos…).
Conta a lenda que Pêro Esteves, pai de Inês Pires, e portanto avô materno de D.Afonso, teve um desgosto tão profundo ao ver que a filha era amante do Mestre de Avis, que nunca mais cortou as barbas. Daí a sua alcunha de o “Barbadão”.
Agora passemos à História: após a morte de D. Fernando e o interregno que se lhe seguiu e após vários acontecimentos relevantes, o Mestre de Avis é aclamado Rei de Portugal, como D. João I, em Abril de 1385. Em Agosto desse ano trava-se a decisiva Batalha de Aljubarrota que garantiu a independência de Portugal. Em 1387 D. João I casa com D. Filipa de Lencastre. Camões chamou aos Príncipes, seus filhos, a “ Ínclita Geração”.
Mas o primogénito de D.João I foi, de facto, D.Afonso,. El-Rei reconheceu-o como filho e para ele contratou excelentes mestres que lhe deram uma educação primorosa..
Aos 21 anos, em 8 de Novembro de 1401, casou D. Afonso com D.Beatriz Pereira de Alvim, filha única do Condestável D. Nun’Álvares Pereira. Era D.Beatriz uma herdeira opulenta e trouxe como dote não só títulos, como também uma das maiores fortunas da Península Ibérica. D. Afonso tornou-se 8º Conde de Barcelos e um dos homens mais ricos e poderosos de Portugal.
Após a morte de D. João I, subiu ao trono D. Duarte, cujo reinado durou apenas 5 anos. Seu filho, D.Afonso V, era ainda criança. Por isso, foi nomeado Regente do Reino seu tio D.Pedro, o das “5 Partidas do Mundo”, assim designado por ser um homem muito viajado e muitíssimo culto. Todos os documentos o dão como muito “ avisado” e bom orientador das “cousas do reino”. Ou seja, um grande regente.
No entanto, parece fora de dúvidas que, por inveja, D.Afonso iniciou uma teia de intrigas junto do rei-menino, seu sobrinho, contra o Regente D. Pedro, seu meio-irmão. Alguns cronistas e historiadores falam do seu carácter malévolo e desmesuradamente ambicioso. As relações entre D. Pedro e D. Afonso não eram, pois, as mais cordiais. Todavia, num gesto de boa vontade e para apaziguar a os ânimos, D.Pedro concedeu a D.Afonso em 1442 o Ducado de Bragança. ( É de salientar que esta doação representava uma grande honraria e um grande senhorio, uma vez que, antes deste ducado, apenas existiam dois em todo o reino: o de Coimbra e o de Viseu, criados por D. João I para os filhos D. Pedro e D. Henrique, respectivamente) .
Porém, nem o Ducado de Bragança conseguiu calar a ambição e a inveja de D. Afonso. Continuou intrigando e conspirando junto do rei e talvez tenham sido as suas intrigas que, em 1449, terão conduzido à fatídica Batalha de Alfarrobeira, em que D. Pedro e alguns fieis seguidores foram chacinados. (Todos nos lembramos ainda da famosa frase que Alexandre Herculano pôs na boca do grande amigo de D. Pedro, D. Álvaro Vaz de Almada que, já por terra, com a chusma a cair sobre ele, exclamou: “Fartar , vilanagem!” ). [V. “Lendas e Narrativas”] Aparentemente, D. Pedro morreu em combate, mas não está posta de parte a hipótese de que a sua morte tenha sido um assassínio disfarçado na batalha. (Enfim, uma negríssima mancha na nossa História!)
O acto foi reprovado por todas as casas reais europeias que tinham D. Pedro em elevada consideração.
Com a morte de D. Pedro, D.Afonso de Bragança ganha cada vez mais influência e poder sobre o rei que lhe concede importantíssimas mercês e lhe confia a regência do reino enquanto ele, rei, se demora nas suas campanhas no Norte de África.
Por esta altura a Casa de Bragança era tão forte e poderosa que, em muitos aspectos, excedia a própria Casa Real.
As coisas vão mudar quando D. João II sobe ao trono. Farto da ganância, das intrigas e conspirações dos Braganças, o Príncipe Perfeito decidiu pôr cobro aos seus actos pouco dignos. Perseguiu-os ferozmente, confiscou-lhes bens e reduziu-lhes o poder. (Mas isso seria outra história).
Para terminar, falta dizer que D.Afonso, 1º Duque de Bragança, morreu em 15 de Dezembro de 1461 no seu Paço de Chaves e o seu túmulo encontra-se no Convento de S. Francisco, nesta cidade.
Também em Chaves faleceu, em 1412, sua primeira mulher, D. Beatriz Pereira de Alvim.
Quanto a Inês Pires, foi trazida para Lisboa, tendo vivido no Paço dos Infantes, numa dependência do qual estavam instaladas as comendadeiras do Mosteiro de Santos-o-Velho, de que terá sido Superiora.
Nota: Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento a todos os leitores que , eventualmente interessados por este tipo de artigos , queiram acrescentar, completar ou corrigir a informação produzida.
FONTES:
Joel Serrão, “Pequeno Dicionário de História de Portugal”, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão , “História de Portugal” Vol. II: “Formação do Estado Moderno” (1415 – 1495 ), 2ª ed. , Lisboa, 1978
Abade de Baçal: Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança” 2ª ed,, Bragança, 2000
Jean-François Labourdette, “História de Portugal”, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2003
Informação colhida na Internet, por ex. : em “ O Portal da História ” e em “GENEA”.
Posted at 06:08 by ntmad
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2007.05.05
À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS - 2ª Parte*

Constantino, sem perder a emoção que aquela felicitação representava, sentiu que podia dar novo salto na profissão e, sem dar a conhecer os seus desejos, começou a fazer planos à vida, sem esquecer que ali o Sr. Flamet seria sempre o mestre e ele nuca passaria do garçon-aprendiz, um empregado, confinado ao salário da semana, que mal daria para viver.
Certo dia, pela manhã, verificou que Mestre Flamet, a um cliente mais habitual, alto, magro, sempre vestido a preceito, sapatos envernizados, gravatas a condizer com a camisa e o facto, tratava amavelmente por Sr. Isidore Culot e, com cerimoniosa atenção, oferecia o Sr. Constantin para lhe fazer, na hora, mais uma perfumada camélia branca.
Constantino, feliz por servir tão ilustre cliente e antevendo um potencial homem de negócios capaz de o ajudar, de imediato deitou mãos à obra e, num ápice, apresentou-lhe a mais perfumada e fresca camélia que siderou o Sr. Isidore.
Espantado com a elegância das pétalas, o perfume, a arte, a rapidez, com que viu aparecer a camélia, exclamou incontidos elogios que o Sr. Flamet nunca ouvira.
Cenas destas se repetiram até que um dia, já em conversa a sós com o nosso Constantino, o Sr. Isidore, entre dentes, lá lhe disse:
- Sr. Constantin está na hora de ser alguém, de se estabelecer por sua conta.
Constantino, sem pestanejar, de pronto lhe respondeu:
- Sr. Isidore, isso é bom de dizer, mas, e o dinheiro para montar uma oficina?
Homem, não hesite, faça-se à vida, descubra uma loja central que o resto fica comigo.
O nosso Constantino, oito dias depois, anunciava ao Sr. Flamet o seu propósito de se despedir ao mesmo tempo que lhe agradecia as oportunidades que lhe dera.
O Sr. Flamet, chocado com a notícia, balbuciou-lhe o aumento de ordenado, melhores instalações e condições de trabalho, casa por conta do patrão, enfim uma assinalável melhoria.
Constantino, decidido, repetiu os agradecimentos e anunciou-lhe que se ia estabelecer, por conta própria, pois ali não passaria de um eterno aprendiz.
Lamentando o sucedido mas compreendendo a ambição de Constantino acabou o Sr. Flamet por agradecer a atenção e o carinho que recebera e desejou-lhe a melhor sorte.
E é assim que, em 1837, o nosso Constantino aparece estabelecido em Paris, no n.º 59 da Bourbon-Villeneuve, onde permaneceu até 1844.
Paris rendeu-se à arte de Constantino, a sua fama ultrapassou fronteiras, as casa reais encomendavam-lhe as flores e, pelas ruas, frequente era verem-se passar os ramos de flores de Constantino ou as camélias nas lapelas dos casacos que passara a ser grande moda.
A oficina tornava-se pequena para tanta encomenda e os empregados já não eram capazes de satisfazer as encomendas.
Em 1844, após o desgraçado tufão que arrasou a ilha de Guadalupe, nas Antilhas, sob administração francesa, A rainha Maria Amélia, perante tal desgraça, resolveu lançar uma quermesse com cujas ofertas seriam organizados leilões para angariar fundos para os sobreviventes.
Entre as muitas ofertas destacavam-se as grinaldas e os ramos de Flores feitos por Constantino para além de outras obras de arte com que fidalgos e burgueses ajudaram a por em pé tal iniciativa.
As rosas, os amores-perfeitos, as camélias, entrelaçadas em ramos, ganhavam, com as respectivas decorações, uma beleza e brilho tão impressionantes que as senhoras, sem olhar a preços, as disputavam no animado leilão.
Todas queriam as flores e os perfumes de Constantino e uma delas, sem querer, retirou uma pétala duma flor e, levando-a ao nariz e parecendo-lhe natural, extasiada, gritou:
Maravilha, maravilha! Viva Constantino, Viva o Rei dos Floristas ao que todos os presentes em uníssono repetidamente aplaudiram.
Correu célere a notícia e, no dia seguinte, pela manhã, os jornais do dia anunciavam em grandes parangonas o acontecimento.
A rainha Maria Amélia, ante tão grande ovação, encantada pelos ramos de flores que antes vira e tocara, acabou, nesse mesmo ano de 1864, por enviar à loja do nosso Constantino o mensageiro habitual para encomendar a coroa de flores de laranjeira que a princesa Dona Clementina haveria de levar no dia do casamento.
Constantino, emocionado pela opção da Rainha e antevendo o que isso representava, de imediato respondeu ao mensageiro que no dia seguinte seria ele próprio que levaria duas coroas para sua alteza escolher a que mais gostasse.
Os empregados, em uníssono, grande ovação prestaram a Constantino e mais uma vez exclamaram: Mestre, mestre, grande mestre, o Rei dos Floristas
Lequerel, também sócio e contabilista da sociedade, depressa se abeirou de Constantino e, sem mais, ripostou-lhe:
- Mestre, uma rainha só pode encomendar flores a um rei, ao nosso Rei dos Floristas!
Bom, bom, meninos, vamos ao trabalho, amanhã começa um novo dia, assim o creio.
No dia seguinte, como prometera, apresentou-se Constantino no palácio e, conhecedora da sua presença, decidiu a rainha receber ela própria o grande Constantino.
Ante tão prestigiante atenção, Constantino, mal viu a rainha entrar no salão, depressa se abeirou e, de joelho em terra, como era hábito nesses tempos, entregou à rainha Maria Amélia duas delicadas grinaldas de flores e botões de laranjeira, uma, artificial, feita pelas suas mãos, a outra de flores naturais igualmente feita por si.
Mas, Mestre Constantin, só se encomendou um ramo de flores!
- Majestade, decidi fazer duas coroas para que possa escolher e, se me for permitido, deixarei as duas e amanhã virei buscar a que for rejeitada.
No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:
Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!
Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.
O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:
Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.
Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:
- Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores
- Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?
- Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.
- Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.
- Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?
- Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!
- Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.
E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!
- Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?
O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:
- Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.
Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!
- Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.
E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de Santo Agostinho onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.
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Posted at 07:20 by ntmad
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