|
2007.09.08
AS 7 MARAVILHAS... À MESA

Assistimos a 07 de Julho à proclamação das 7 novas Maravilhas do Mundo, e em simultâneo à nomeação das 7 Maravilhas de Portugal. Não quero entrar nos detalhes sobre a forma de encontrar os finalistas. Enfim estamos numa época de grandes avanços tecnológicos e esses mesmos podem perverter os sentidos dos votos. A organização era privada e os resultados têm o valor que cada um lhe quiser atribuir. Por alguma razão a UNESCO se afastou dessa classificação e também não quis comentar. Quero só lembrar o pedido feito aos brasileiros e decerto, pelas suas reacções, o Cristo do Corcovado lá ficou.
Quanto às maravilhas portuguesas apetece-me divagar um pouco mais. O Castelo de Guimarães, enquanto património nada se compara com o Castelo de Bragança. A votação, se calhar, teve mais a ver com a emoção do nascimento de Portugal. Um pequeno castelo como símbolo da Nação…! Depois o Castelo de Óbidos. Bem o Castelo é interessante, está lá instalada a primeira Pousada de um edifício histórico (desde 1950), mas para mim o interessante é o conjunto de Óbidos dentro das muralhas. Com o seu casario e as Igrejas.
Em simultâneo um grupo hoteleiro e de restauração lançou, via net, um concurso para eleição das 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa de que faziam parte para votação pública as seguintes por ordem alfabética: Alheiras de Mirandela, Amêijoas à Bolhão Pato, Arroz de Cabidela, Arroz de Marisco, Bacalhau à Lagareiro, Cozido à Portuguesa, Cabrito Assado, Caldo Verde, Carne de Porco à Alentejana, Francesinhas, Leitão da Bairrada, Leite Creme, Migas, Ovos Moles de Aveiro, Pasteis de Bacalhau, Pastel de Nata, Polvo à Lagareiro, Presunto de Chaves, Queijo Serra da Estrela, Queijo da Ilha de São Jorge e Sardinhas Assadas. Apetece-me perguntar, tratando-se de Gastronomia, porque não estavam representados os Vinhos? Pelo menos o Vinho do Porto que seria mais um representante da nossa região. Já não querendo entrar na polémica, as alheiras porquê as de Mirandela? Evidentemente que nestas questões nem sempre é possível contemplar todas as opiniões ou vontades. Sobre as alheiras eu tenho uma posição bem definida, e sobre a qual já tenho escrito. Fico muito contente quando se escreve sobre alheiras independentemente da sua origem.
Bem, os apurados foram por número de votos: Cozido à Portuguesa, Pastel de Nata, Leitão da Bairrada, Queijo da Serra, Caldo Verde, Sardinhas Assadas e Carne de Porco à Alentejana.
Lá ficaram de fora as duas especialidades transmontanas!
Todas estas iniciativas, em Portugal, servem para ajudar a melhorar o nosso auto estima, mesmo que os critérios e os resultados não sejam inteiramente do nosso agrado. Ajudam-nos também a reflectir um pouco. Por isso, pelo menos, devemos apoiar todas estas iniciativas. E servem também para que não se escreva só sobre futebol, apesar de este ter surgido em duas oportunidades na cerimónia dia 7 de Julho.
A Escola Secundária Abade de Baçal, de Bragança, organizou uma votação para eleger as 7 Maravilhas de Trás-os-Montes. Ganharam: Domus Municipalis de Bragança. Castelo de Bragança, Santuário do Santo Cristo de Outeiro, Palácio dos Távoras de Mirandela, Igreja dos Clérigos de Vila Real, Palácio de Mateus de Vila Real e Barragem do Picote. A mesma escola promete para Outubro a eleição dos Sete Mamarrachos. Esperemos com atenção, e alguma ansiedade, para possivelmente assistirmos aos desmandos do crescimento urbano não controlado, ou de mau gosto.
Mas o que eu gostaria mesmo era de lançar uma eleição das 7 Maravilhas de Trás-os-Montes e Alto Douro à Mesa. Terá este Jornal ou esta Casa, em associação com as outras Casas congéneres, condições para organizar uma eleição destas? Onde estão os voluntários?
Naturalmente que estou disponível. Aguardo as vossas disponibilidades.
E parece-me muito útil fazer um exercício deste tipo pois acaba de ser publicado um livro de uma colecção de 21, com o título pomposo de "Guia Gastronómico de Portugal" e cujo volume 13 é dedicado a Trás-os-Montes e editado pela Ciro Ediciones, SA de Barcelona. Por acaso esta editora já tem um livro de receitas de cozinha de Portugal que tive a oportunidade de criticar pela ausência de rigor e falta de representatividade. Até parece um livro feiro à pressa e sem consultar, em Portugal, que sabe. Relembro o que escrevi no Jornal da CTMAD de Junho/Julho de 2006.
Ora o livro agora apresentado de "Trás-os-Montes", que contou com a colaboração de 3 cozinheiros que eu muito prezo, não ilustra a nossa Região em termos de receituário.
O texto introdutório contém algumas imprecisões. A começar por definir a região. Quanto ao receituário apenas apresento alguns exemplos pela negativa: melão com presunto (pela vulgaridade e pela ausência da qualidade ou origem do presunto), sopa provinciana (igual em todo o País), patê do Chefe Eliseu (trata-se de um livro que identifica uma região, a receita é boa mas não serve os objectivos), bacalhau à transmontana (coberto com molho Bechamel???), rodovalho no forno (de que sítio, sem ser a costa, isto é especialidade?), depois 2 postas (porquê diferentes e uma delas acompanhada por rosti?), na introdução ainda nos referem o fricassé de pato com canela! No capítulo das sobremesas: charlotte de morangos, delícia de natas, folhado de framboesas, bolo de morango e tarte de laranja (e é apresentada torta). Esqueceram-se das maravilhas de comida da verdadeira tradição transmontana.
Um capítulo excelente de cozinha de autor, com referências e produtos transmontanos, do Chefe Manuel Gonçalves.
Defendamos aquilo que ainda é nosso.
BOM APETITE!
Posted at 10:36 by ntmad
Permalink
2007.09.04
COMEMORAÇÕES DO 102º ANIVERSÁRIO DA CTMAD
PROGRAMA
Dia 21 de Setembro (Sexta-Feira) Local : Sede da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro
19:00 - "Ilustres Judeus Transmontanos" – Palestra pelo Prof. Adriano Rodrigues. 20:00 - Jantar regional.
Dia 22 de Setembro (Sábado) Local : Salão de Festas do Vale Fundão (Junta de Freguesia de Marvila) Azinhaga do Vale Fundão (junto ao cruzamento do prolongamento da Av. dos Estados Unidos da América com a Av. Infante D. Henrique) Autocarros: 755 (nas proximidades: 82, 718 e 794)
18:30 - Concentração (recepção de associados e amigos, regularização de quotas, pagamento inscrição para o jantar, aquisição de livros e lembranças, etc.). 19:00 - Início da sessão comemorativa. Saudação de boas vindas. 19:10 - Lançamento da Revista do Centenário da CTMAD. Apresentação. 19:30 - Agraciamento aos sócios mais antigos. Distribuição de diplomas e de lembranças. 20:00 - Convívio dos participantes com distribuição de aperitivos. 20:30 - Jantar de confraternização. 22.00 - Sessão de fados pelo Grupo da Associação Cultural do Fado (ACOFA). 24:00 - Corte de bolo de aniversário e distribuição de champanhe. Grupo "Maranus" - Música para dançar. 01:00 - Encerramento da festa.
Dia 23 de Setembro (Domingo) Local : Igreja de S. Maximiliano Kolbe
10:30 - Arruada em Chelas pelo Grupo de Bombos de Mondrões. 11:00 - Missa evocativa dos sócios falecidos. Celebração a cargo do Rev.º P.e João Parente, com a participação da Tuna Musical de Bisalhães (Vila Real) e o Coro Vocal da Paróquia de Mondrões (Vila Real). 14:30 - Arruada no Campo Pequeno pelo Grupo de Bombos de Mondrões.
Nota Importante:
A participação em ambos os jantares (que serão servidos à mesa, em lugares sentados) exige a prévia inscrição na Sede da CTMAD até à antevéspera dos dias assinalados. O preço de cada refeição é de 15 €.
Posted at 19:07 by ntmad
Permalink
2007.08.26
por Miguel Torga
Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.
Posted at 20:02 by ntmad
Permalink
por Miguel Torga
Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!
Posted at 19:48 by ntmad
Permalink
2007.07.18
A SITUAÇÃO DA NOSSA REGIÃO, JUNTE-SE A NÓS!
Sessão preparatória do Encontro Regional proposto pela CTMAD, no dia 28 de Julho, às 9:30, no Auditório Municipal de Mirandela.
A HORA APROXIMA-SE !
Estamos no limiar de uma nova atitude em Trás-os-Montes e Alto Douro.
A vida de todos nós agrava-se. As aldeias e vilas continuam a desertificar-se. Os jovens, os recém licenciados, a seiva viva do nosso povo é obrigada a saír para o litoral ou para o estrangeiro. Perdemos gente e perdemos indtituições em cada distrito e na região.
O sobressalto positivo impõe-se. Por isso, Autarquias Locais, instituições ainda decisivas em cada terra, intelectuais, personalidades dos mais diversos quadrantes, as forças do trabalho e da inteligência, os sindicatos, as associações empresariais, culturais, sociais, desportivas e cívicas, os partidos políticos, as Casas e Associações Regionais e Concelhias representativas, sedeadas no nosso país e no estrangeiro, têm de unir-se e reunir-se o mais breve possível, na região, para analisarem a situação e decidirem o que vamos fazer para impedir que Trás-os-Montes e Alto Douro seja, a breve prazo, definitivamente sacrificada pelos que prometem e voltam a prometer e, afinal, só actuam para beneficiar o litoral, as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, os interesses dos que não privilegiam nunca um desenvolvimento sustentado e integrado.
Estamos no limiar de uma nova perspectiva e de uma nova acção, decisiva, para defendermos a nossa terra, cada uma das nossas terras, as nossas gentes, a nossa economia, identidade e cultura. Por isso, propomos que seja realizado um encontro em Outubro, para decidirmos o que vamos fazer por Trás-os-Montes e Alto Douro. Poderemos marcar um novo Congresso da região trasmontana e duriense, para realizarmos em 2008. Poderemos e deveremos estudar, marcar e preparar as iniciativas que entendermos adequadas, para que nunca mais nos impomham decisões perigosas e destruidoras do nosso futuro.
Para que tenhamos uma palavra firme, as palavras e os actos que entendermos levar a cabo em defesa do progresso da nossa terra.
Está nas nossas mãos e temos de avançar. Hoje, não há mais lugar para os titubeantes, para os que acabam sempre por concorrer para o reforço dos Terreiros do Paço que há em Lisboa e há em qualquer lado onde sopram os interesses centralistas e esvaziadores do interior do nosso país.
Aqui estamos, a propor medidas e acções. Primeiro, que nos encontremos, as forças vivas da região e da diáspora. Depois, que saibamos partir para a conquista dos nossos direitos, não abdicando dos deveres e das decisões que serão nossas, têm de ser nossas, finalmente.
A palavra de partida está dada. Que ninguém falte, ao nosso encontro de trasmontanos e durienses, de gente que abre a porta a todos, mas que também saberá fechá-la a quem nos trai e empobrece.
Posted at 07:51 by ntmad
Permalink
2007.06.17
Caros Amigos e Associados!
Os tempos que correm não mostram facilidades e a nossa CTMAD, para não fugir à regra, assiste, triste e desolada, à indiferença e até abandono de alguns associados que, parecendo incapazes de compreender as limitações, a maioria das quais são exteriores à Casa e alheias à Direcção, ou até de as aceitar, desistem com facilidade de aqui vir e uma boa quantidade esquece-se de lhe proporcionar os reduzidos meios a que se obrigaram.
A CTMAD, para além das festas anuais, não dá muito mais aos seus associados não porque falte vontade aos órgãos sociais mas, se bem ponderarem, hão-de reconhecer que as circunstâncias do espaço em que nos encontramos, a necessidade de preservar o descanso dos vizinhos e a pequenez das instalações impedem-nos de provocar movimentados convívios, de proporcionar lazer e diversão a partir dos quais se pode desencadear a receita que assegure as despesas e autonomia da Casa.
A Casa atravessa um período de excepcionais dificuldades e, ante elas, não lhes podemos virar as costas e por isso, com a vossa ajuda, assim o espero, estou certo que iremos ultrapassá-las apesar de, no mês de Abril, só se terem apurado 870 euros de quotas e no de Maio de 600.
Ora, como despesas mensais fixas temos, em salários e jornal, 1 600 euros mais as de água, luz, electricidade, correio e telefone, que são variáveis e são satisfeitas com a exploração do bar, digam-me amigos e associados que exercícios de engenharia financeira não teremos de fazer para manter esta Casa.
O elevador já funciona e, ante esta assinalável melhoria, bem espero que os associados regressem à casa e aqui venham, entre o mais, fazer as partidas de sueca, de damas, de xadrez e tudo o mais que entenderem dentro do racional convívio que a Casa Consente,
Para as senhoras bem poderá aqui haver lugar a um chá, dizer poesia, fazer uma reunião de amigas ou até de fazer trabalho voluntário a favor da CTMAD e da Região, nomeadamente, gizar a estrutura e modelo do IV Congresso Trasmontanoduriense pois já há muita gente a desejá-lo.
Interessante seria ver as mulheres da Nossa Terra a definirem os cordelinhos da magna assembleia da região e mostrarem que têm uma Alma Grande, apesar da Igreja, só no Concílio de Trento, em 1473, haver reconhecido que também a tinham.
E agora, que a meta da Regionalização ressuscitou, bem se pode apanhar o comboio e embarcar nessa aventura que é de e para todos nós tanto mais que já se ouvem os clamores dos antigos e egrégios Trasmontanodurienses e já se levantam as vozes que a reclamam.
O Congresso bem pode ser um instrumento valioso e um areópago onde se suscitem as questões próprias da regionalização com o acrescido conhecimento sobre a mesma.
Por isso amigas e amigos venham dar o vosso contributo, juntem-se ao Conselho Regional e ajudem a levantar a voz da Região e da CTMAD.
Posted at 11:57 by ntmad
Permalink
NOTÍCIAS DA CTMAD DE GUIMARÃES

É um facto que todas as Casas Regionais de Trás-os-Montes e Alto Douro espalhadas por Portugal e pelo estrangeiro não têm primado pelo diálogo e pelo intercâmbio, pese embora a criação, em 8 de Setembro de 2001, de uma Federação destinada a defender e valorizar a Região de Trás-os-Montes e Alto Douro e a manter os laços de solidariedade e de fraterna amizade e convívio entre todos os transmontanos e altodurienses.
É por isso que constituiu uma agradável surpresa a recepção do jornal da CTMAD de Guimarães - "ALÉM MARÂO – antes quebrar que torcer", mantendo-se, por esta via, ao menos, um laço de amizade que importa preservar e salientar.
Vêm-nos notícias da posse dos novos corpos sociais para o ano em curso, sendo a mesa da A. G. Presidida por Manuel Eusébio Macedo Ribeiro e a Direcção por Joaquim Silva Coutinho, informações acerca da programada visita anual a um concelho da Região, neste caso a Macedo de Cavaleiros, a referência elogiosa à C. M: de Vinhais por ter sido a única autarquia a apoiar a "CTMAD" de Guimarães, uma curiosa proposta de um pic-nic na praia, etc.
Oxalá a vitalidade da "CTMAD" de Guimarães perdure e seja exemplo para as demais Casas Regionais. Para além de votos de bom labor, a "CTMAD" de Lisboa expressa à sua congénere de Guimarães a sua solidariedade regionalista, ficando ao seu dispôr para a realização de eventuais acções conjuntas em prol do desenvolvimento da nossa Região.
Posted at 09:58 by ntmad
Permalink
1 DE JUNHO - DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Esses olhos de sonhar, criança, deviam provocar a insurreição das consciências nos países ricos do norte.
Não basta termos bons sentimentos, termos sido bons e sabedores. O saber e o sentimentosolidário para com o nosso semelhante, para grande parte da Humanidade que vivena mais extrema miséria, deverá traduzir-se em acções que projectem, com carácter de urgência, um mundo bom.
Porque, este mundo, onde a voragem do lucrosem limites, por uns tantos predadores, que impiedosamente destroem Estado após Estado, devastam a natureza e os seres humanos, enchem-nos de vergonha. O Império da vergonha atinge vertiginosamente a ignomínia.
A 3 de Agosto de 1999, duas crianças, de 14 e 15 anos, com olhos de sonhar, no desespero dos seus aflitivos e desesperançosos dias de adolescentes africanos, sonharam a Europa. Numa madrugada de um sol nascente avermelhado, o Boeing 747 da Sabena aterrou às 6H15 no aeroporto de Bruxelas-Zaventem. Um controlador de fato-macaco branco deu volta ao aparelho e descobriu no tem de aterragem dois corpos de adolescentes negros, encolhidos, enregelados, vestidos apenas com uns simples calções, umas sandálias e uma camisa de manga curta. Estiveram expostos a temperaturas exteriores de 50 graus negativos. No bolso da camisa de um destes pequenos guineenses encontraram uma folha cuidadosamente dobrada. Essa ingénua carta dizia:
- " Portanto se virem que nos sacrificamos a arriscarmos a vida é porque sofremos demais em África e precisamos de vocês para lutar contra a pobrezae para pôr fim à guerra em África. Porém nos queremos estudar e pedimos que nos ajudem a estudar para sermos como vocês em África.
Finalmente pedimos imensa desculpa por termos ousado escrever esta carta a pessoas como os senhores, tão importantes, por quem temos tanto respeito. E não se esqueçam de que é a vocês que devemos queixarmo-nos da fraqueza da nossa força em África".
O Gabinete Europeu das Nações Unidas publicou o fac-símile desta carta, cf. E/CN.4/2000/52, Genebra, 2000.
Desde então, a voragem da mundialização multiplica por milhões as suas vítimas flutuando agonizantes num oceano imerso de miséria, com algumas ilhotas de prosperidade, riqueza e de indiferença aqui e ali.
Entre o dilema de morrer esperando a morte ou afrontá-la com uma réstia de esperança, muitos dos esfomeados da terra tentam atingir a "terra prometida".
Na fronteira do México com os EUA, nas redes electrificadas com extensão de quilómetros, no rio controlado pelos "rangers", no deserto desolador, morrem milhares de mexicanos e sul-americanos.
No Mediterrâneo e no Atlântico afundam-se barcaças repletas de africanos subsarianos, tendo mesmo sido encontrada à deriva, bem longe no Atlântico, uma barcaça com cadáveres mumificados.
Muitos destes africanos atingem a costa espanhola, a costa italiana, as ilhas Canárias, etc. As equipas de saúde tratam-nos e são depois devolvidos aos seus países onde tentarão de novo alcançar a "terra prometida" porque a fome não é, nunca será, o destino de um homem.
Falemos então dos que vão morrer de fome e suas consequências directas.
"Prouvera a Deus que eu não soubera tanto", como disse Pessoa, mas sei. E o que sei, não sendo tudo, é já estarrecedor.
Todos os sete segundos, na Terra, uma criança abaixo dos dez anos, morre de fome. Isto é, se eu, se tu, fizermos uma inspiração profunda, ao expirarmos o ar, mais uma criança, algures, morreu de fome. Oiçam como eu respiro: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Ininterruptamente, a este ritmo, morre de fome uma criança.
Segundo o Relatório de 2000 da FAO (Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura), em cada dia, no Planeta Terra, a nossa Casa Comum morrem de fome e suas consequências imediatas cerca de 100 000 seres humanos (Cem mil silenciados massacres). 826 milhões de pessoas estão hoje em dia crónica e gravemente sub-alimentadas. Destas, 34 milhões vivem nos países economicamente desenvolvidos do Norte. 515 milhões vivem na Ásia, representando 24 por cento da população e 186 milhões destes seres humanos vivem na África subsariana, numa percentagem de 34 por cento de população. E destes, segundo a FAO, grande parte sofre de "fome extrema".
Sabemos que uma criança com graves carências alimentares desde o nascimento (e gestação) até aos 5 anos, sofrerá sequelas para o resto da vida porque a fome severa, sofrida nos primeiros anos, provoca danos irreparáveis nas células cerebrais.
São os milhões de cranças a que Régis Debray chama "os crucificados à nascença".
E tudo isto se passa num planeta a transbordar de riqueza.
Segundo os especialistas da FAO a Terra poderia alimentar "normalmente" 12 mil milhões de seres humanos, fornecendo-lhes o equivalente às 2700 calorias necessárias por dia. A população mundial actual é pouco mais de 6 mil milhões.
Em contrapartida, nos chamados países ricos, onde os subalimentados são 34 milhões, as doenças cardiovasculares fazem cada vez mais vítimas devido à alimentação excessiva e, a obesidade, designadamente a infantil, tornou-se um problema de saúde pública.
Os alimentos-desperdícios dos ricos, que vivem fortificados, prisioneiros das suas próprias riquezas, são ansiosamente procurados por crianças nas montanhas de detritos nos arredores de Manila, conhecidas por Smokey Mountains, nas "barrilladas" do Perú, nos arredores de Carachi e de outras grandes cidades da Ásia...
Enquanto isto, em vários países ricos, um quarto dos cereais produzidos no mundo é todos os anos utilizado para alimentar milhões de bois e de vacas que se irão transformar em super/maxi/hamburguers.
Os 225 patrimónios privados mais elevados do mundo atingem em conjunto 1 bilião de dólares. Esta soma corresponde ao rendimento anual acumulado dos 2,5 mil milhões de pessoas mais pobres do Planeta, ou seja, 47 por cento da população total.
No Brasil, 2 por cento dos proprietários fundiários detem 43 por cento das terras aráveis. Quatro milhões e meio de famílias de camponeses sem terra vagueiam humilhados e miseráveis pelas estradas desse imenso e rico país.
Empresas transcontinentais detêm, só por si, 555 mil milhões de dólares de reservas e os seus meios ultrapassam as suas próprias capacidades de investimento. Distribuem aos seus accionistas dividendos fabulosos e aos seus gestores gratificações astronómicas.
Grande parte destas informações, limitadas por retratar de um artigo, foram recolhidas em livros da autoria de Jean Ziegler, Relator Especial da Comissão dos Direitos do Homem (das Nações Unidas), sobre o Direito à Alimentação.
Este autor é um combatente da esperança. E exorta-nos à esperança, actuante. Porque perante o escândalo destas e doutras verdades, ninguém pode ficar indiferente e passivo.
Teremos que agir.
Deus não tem outras mãos senão as nossas.
Para melhor conhecer Jean Ziegler ler:
"A fome no mundo explicada ao meu filho", da Terramar;
"Os Novos Senhores do Mundo e os seus opositores" da Terramar;
"O Império da Vergonha", da ASA.
"Gritos contra a Indiferença", de Fernando Nobre, Presidente da AMI, Edição do Autor e Temas e Debates, é outro livro essencial.
Posted at 09:47 by ntmad
Permalink
2007.06.16
CONVÍVIO ANUAL DOS AMIGOS DE CERVA E LIMÕES
por Sofia Miranda
Mais um ano…mais um mês de Maio…mais um convívio de naturais e amigos de cerva e Limões. Parafraseando Camilo Castelo Branco numa das suas obras: “ali reuniu-se connosco uma estúrdia, que vinha dos lados de Cerva (…)”.
Apesar do S. Pedro (santo padroeiro da nossa terra) não ter estado do nosso lado, este foi sem dúvida o melhor convívio que realizámos. Há quatro anos atrás, um cervense convicto de que a sua terra é a mais bonita de Portugal, teve um momento de luz ao pensar nestes almoços de confraternização. Finalmente, a sua perseverança foi reconhecida e recompensada!
No decorrer destes anos, tem sido visível o crescendo de pessoas que a nós se tem juntado e este ano fomos surpreendidos com cerca de 200 conterrâneos acompanhados de familiares e amigos. O local escolhido foi o restaurante “Casa da Azenha”, sita em Vale de Lobos, propriedade de um amigo e conterrâneo que nos presenteou com enorme simpatia e hospitalidade.
A nossa casa transmontana, também, esteve representada por dois membros da direcção que aplaudiram e apelaram a mais iniciativas do género. Quem esteve presente pôde testemunhar a emoção e comoção daqueles que por circunstâncias e acasos da vida, não se encontravam há muitos anos.
Estes eventos não têm idade e os mais novos ouviram histórias de outros tempos e partilharam a alegria daqueles que rejubilavam ao relembrar um passado de outrora. Mas a lembrança deu lugar à alegria e após um repasto “regado” com vinho morangueiro, seguiram-se as cantorias…os hinos de Cerva e de Vila Real que nos desculpem alguma falha!!!

O entusiasmo era grande e num ápice surgiram concertinas, acordeões, castanholas e canções de fazer lembrar outros tempos que se prolongaram por toda a tarde, fazendo terminar mais um belo convívio. Ansiosos, ficaremos a aguardar mais um ano, torcendo para que mais conterrâneos e amigos se juntem a esta iniciativa, valorizando as origens de cada um.
Até para o ano…
Posted at 10:02 by ntmad
Permalink
2007.06.15
SÍNTESE DA CONFERENCIA "INTERIORIDADES E DESAFIOS PARA PORTUGAL"
por João Manuel Sampaio
Nuno Aires, Presidente da Casa de Trás-os-Montes, na apresentação de Adriano Moreira, foi feliz ao dizer que Adriano Moreira, "é um cidadão que é de todo o mundo", e não só de Trás-os-Montes e de Portugal.
Sem se esquecer de dizer que a nova Casa prevista, ainda está no sonho, Nuno Aires, agradeceu o apoio da autarquia lisboeta na cedência do espaço para mais um evento, e depois desfiou um conjunto de factos que fazem de Adriano Moreira, um transmontano de Grijó, Macedo de Cavaleiros, um dos pensadores portugueses mais lúcidos que importa ter em conta, neste momento de mudança de paradigma fronteiriço nacional.

"O estado ainda não se organizou para as várias fronteiras que o país tem, país que mudou de maneira radical" e, por isso, muita coisa há a mudar, e o país tem de dar uma resposta às novas fronteiras", disse-o Adriano Moreira.
"O País precisa de vistas largas", face à nova realidade que está perante os olhos de todos, disse o Professor, referindo-se ao tema em análise que mereceu a atenção de mais de meia centena de transmontanos e não transmontanos que o ouviram, alguns dos quais tiveram a oportunidade de jantar na Casa e participar no descerramento de um quadro com a imagem do Professor de Grijó, que hoje é já cidadão do mundo, elaborado por António Afonso, de Bragança.
"O rei, era o rei das três regiões. Ele sabia-o, não sei se o senhor Presidente da República não terá de ser confrontado que vai ser Presidente das três regiões". Adriano Moreira começou a sua conversa trazendo à reflexão, pela positiva, a obra de Manuel Cardoso acabada de editar, Um Tiro na Bruma (um romance histórico-policial que retrata a sociedade portuguesa no início do Séc. XIX ). Disse que aproveitou também para reler a Queda de Um Anjo de Camilo Castelo Branco, que caracteriza a classe politica, e Frei Bartolomeu dos Mártires, e depois ficou a pensar de quantas lágrimas é feito cada viveiro em Trás-os-Montes, ocorreu-lhe pensar na interioridade e que por vezes se fala de interioridade para se questionar o desenvolvimento, salientando que "nesta data estão a ser reeditados os livros mais pessimistas da época". Falou de alguns autores como Mouzinho, Antero, falou de Guerra Junqueiro e José Gil, do "medo de existir" e a dado passo, com a lucidez que o caracteriza, disse que "alguma resposta tem de ser dada. Tem de se ter vontade de viver e resistir ao pessimismo".
A interioridade, pobreza, periferia e fronteiras, foram outros conceitos que mereceram a análise do ex- Ministro do Ultramar a quem lhe coube o mérito de acabar com a abolição do indigenato, e que, a dado passo da sua partilha de conceitos, afirma que "a macroeconomia já não pertence à soberania portuguesa e será que a população saberá disso?" perguntou, afirmando com toda a clareza, que "estamos a viver a crise financeira mais severa de sempre", mas a racionalização tal como está a ser feita, como um pacto de orientação não está imune. Virando-se para o interior, afirma, "quando fecham as escolas, os serviços, estamos em fase de desistência", "pois, com a quebra da natalidade, da mão de obra, e de outros factores, leva a que o país entorne para o Atlântico e o interior se desertifique. Está-se a assistir ao choque entre a racionalização e a desistência da interioridade". Na década de 70 apostou-se na educação através dos politécnicos, para que não se imigrasse e se ficasse, só que a economia não se desenvolveu para sustentar a massa cinzenta, e assiste-se a "que com os politécnicos não se fabricou os melhores ficantes mas melhores imigrantes".

Adriano Moreira mostrou-se não concordante com a ideia do ser periférico. "No globo tenho dificuldades de me ver periférico. Nós não somos periféricos. O Atlântico não nos deixa na periferia", e por isso, defendeu, que "a nossa resposta está na qualidade, na investigação e no ensino". Mas, vai mais longe, considera mesmo que "tem de se ver o financiamento para a investigação e ensino, como gastos de sobrevivência".
Houve uma mudança de paradigma e a universidade tem de ser vista como universal e as novas competências têm de ser para um país que mudou de fronteira, entre o Atlântico e os Urais. Adriano Moreira falou ainda do ser português e o como este conceito é assumido pelos vários dizentes. Para um é ser natural de Portugal. Para outro é respeitar a soberania portuguesa, para os novos imigrantes é cumprir a constituição. Tudo isto tem de ser equacionado e não se pode adiar.
"A identidade do país e os valores não podem ser abandonados, a filosofia, a filosofia dos valores, a história, a nossa ciência, não podem ser abandonados", senão corremos o risco da desistência. Investiu-se mais em humanidades do que no que o país precisava, por isso há desemprego", veja-se que existem 22 faculdades com Direito e 3 mil alunos licenciados por ano e já não há Ultramar.
Mas antes Adriano Moreira referiu-se ainda à questão da pobreza, e "a solução para ela era a imigração. Temos de pensar o que aconteceu ao País durante o século XX. Os transmontanos tinham vizinhos e têm: os espanhóis. As fronteiras eram sagradas mas com a adesão há Europa mudaram de natureza.
As fronteiras deixaram de ser sagradas. Agora são múltiplas e pontos administrativos, nomeadamente, a Nato, a União Europeia, a CPLP". E a noutro momento conclui que o Estado ainda não se organizou para as várias fronteiras que o País tem. Muita coisa há a mudar e o país tem de dar uma resposta às novas fronteiras. O nosso país precisou sempre de apoio externo". E o professor lembrou, o caso de Afonso Henriques, que foi pedir apoio e que nunca pagou as onças de ouro ao Papa. Hoje já se fala da Raia sem fronteiras. Badajoz tem a melhor biblioteca sobre o Alentejo, disse. Isto tem de nos fazer pensar.
Outra questão que mereceu uma atenção de Adriano Moreira, é a de que hoje em dia a população sabe das decisões pelos efeitos, são decisões furtivas. Nomeou-se o Ministro do Mar e desapareceu a frota. Antigamente havia o conceito estratégico da sustentação, era o caso dos silos que desapareceram: centeio, milho, girassol e tomate, por exemplo. Em Trás-os-Montes o nível de abstenção mostra o afastamento, a distância entre a população e governo. Lembrou o caso de como se vai à Província buscar o voto.
Durante 60 minutos, Adriano Moreira passou de forma transversal por vários temas que cativaram os presentes, entre os quais se destacava Maria de Jesus Barroso, entre outras figuras gradas que assistiram ao desfiar do pensamento de um transmontano cuja cidadania é internacional, a quem se deve dar mais atenção porque os seus oráculos têm muita pertinência, numa altura em que as fronteiras de Portugal, hoje, são outras, como o Professor afirma, vão do Atlântico aos Urais e já não se confinam ao rectângulo que aprendemos a desenhar.

Posted at 04:23 by ntmad
Permalink
|
|