Entry: A TERRA 2007.08.26



por Miguel Torga 

  

    Também eu quero abrir-te e semear

     Um grão de poesia no teu seio!

     Anda tudo a lavrar,

     Tudo a enterrar centeio,

     E são horas de eu pôr a germinar

     A semente dos versos que granjeio.

 

 

     Na seara madura de amanhã

     Sem fronteiras nem dono,

     Há de existir a praga da milhã,

     A volúpia do sono

     Da papoula vermelha e temporã,

     E o alegre abandono

     De uma cigarra vã.

 

 

     Mas das asas que agite,

     O poema que cante

     Será graça e limite

     Do pendão que levante

     A fé que a tua força ressuscite!

 

 

     Casou-nos Deus, o mito!

     E cada imagem que me vem

     É um gomo teu, ou um grito

     Que eu apenas repito

     Na melodia que o poema tem.

 

 

     Terra, minha aliada

     Na criação!

     Seja fecunda a vessada,

     Seja à tona do chão,

     Nada fecundas, nada,

     Que eu não fermente também de inspiração!

 

 

     E por isso te rasgo de magia

     E te lanço nos braços a colheita

     Que hás de parir depois...

     Poesia desfeita,

     Fruto maduro de nós dois.

 

 

     Terra, minha mulher!

     Um amor é o aceno,

     Outro a quentura que se quer

     Dentro dum corpo nu, moreno!

 

 

     A charrua das leivas não concebe

     Uma bolota que não dê carvalhos;

     A minha, planta orvalhos...

     Água que a manhã bebe

     No pudor dos atalhos.

 

 

     Terra, minha canção!

     Ode de pólo a pólo erguida

     Pela beleza que não sabe a pão

     Mas ao gosto da vida!

 

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